Websérie LGBT + HIV

Olha só que interessante, tem um pessoal realmente empenhado em mostrar para o Brasil e o mundo as dificuldades de se ter HIV. Neste caso quando nos deparamos com o momento de contar para parceiros que temos HIV.

Nós sempre lutamos por um esquema sem efeitos colaterais, para ter todos os exames em dia, para permanecermos indetectáveis e, portanto, não transmitir e etc.
Porém, tem uma coisa que foge do nosso alcance, que é a ignorância prevalente na população em geral e infelizmente muito presente na comunidade LGBT também.

Recebi um e-mail do Luis Fabiano Teixeira divulgando a Websérie dele que tem vários teasers e trailers aqui.

Coloco aqui uma parte do e-mail do Luis Fabiano.

“A produção é totalmente independente, mas está muito caprichada e precisamos da ajuda de pessoas como vocês para que essa mensagem de amor e acolhimento a pessoas que vivem com HIV chegue ao maior número possível de pessoas.”

“Desde 2015, o número de novos infectados entre 15 e 24 anos triplicou e precisamos fazer alguma coisa, já que esse tema ainda é visto como tabu no Brasil. Falar de hiv nas redes sociais é muito difícil, há pessoas que tem até medo de curtir qualquer notícia e ser associada ao diagnóstico, o que torna uma barreira pra gente. “

TRAILER:

Assistam e deixem suas impressões nos comentários. Talvez até relatem problemas pelos quais vocês passam nessa vida de soropositivo. Soronegativos também são bem-vindos, até porque a série mostra os dois lados da moeda.

Obrigado pelo empenho, Luis Fabiano. Ansioso pelos episódios de fato. 😀

I’m back!

Olá, povo soropositivo, soronegativo e etc e tal.

Sei que passei um bom tempo ausente. Sem postar, sem responder comentários, sem dar as caras. Sem sequer entrar em meu próprio blog.

Tive motivos. Mudei de cidade. Nova casa. Novo convívio. Nova rotina. Novas vistas. Novas rotas. Novo emprego. Novas responsabilidades. E, olha só, novo medicamento!

Foram meses de muito trabalho e adaptação. Sinceramente tive poucos minutos destes meses pensando em HIV. O que, para um recém-diagnosticado, pode até vir como um alívio.
Saber que um dia aquele momento aterrorizante vai se tornar algo insignificante, algo mínimo, um detalhe. HIV é um detalhe pra mim hoje em dia.

A caminhada foi dolorosa. Tive sim muitos efeitos colaterais com a primeira medicação, mas estes efeitos não são nada comparados à turbulência mental que um diagnóstico positivo para HIV tem.

É aí que entra a utilidade deste blog: minimizar o sofrimento de recém-diagnosticados.
Chegam com medo da morte. Medo do definhamento certo e iminente. Medo de ter uma meia-vida. Medo de não ser amado. Medo de ser julgado. Medo de nunca mais ser feliz. Medo de ser frágil e vulnerável.

O medo passa. A vida se renova e se resignifica.

Estou de volta.

Caio – 13 dias desde o diagnóstico

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Bom, meu nome é Caio e eu tenho 22 anos. Moro no Recife e me mudei para a capital com o propósito de estudar. Estou aqui há quase 5 anos e prestes a me formar. A confirmação veio no dia 17 de maio de 2017. Sim… Há apenas 13 dias! Jamais imaginei que chegaria no ponto de escrever para vocês, mas diante de tudo o que tenho passado, toda experiência e conhecimento que adquiri ao longo desses dias, acredito que minhas palavras irão ajudar algumas pessoas.
Ao mudar de cidade eu me senti livre, pois não tinha hora para chegar em casa, nãojoshua-k-jackson-203191 tinha pai ou mãe para falar o que eu podia fazer e isso foi maravilhoso para mim, uma liberdade incrível. Foi então que comecei a viver minha sexualidade, cheguei a entrar, várias vezes, nas salas de bate papo UOL e conhecer pessoas casualmente. Em 2013, conheci um cara que queria fazer apenas sexo sem camisinha, no começo ele foi maravilhoso comigo e me pedia muito para engolir a porra dele (O que acabou acontecendo), mas depois desse fato ele sumiu da minha vida e então eu comecei a desconfiar sobre o HIV. Isso ficou para sempre na minha cabeça, mas nunca tive a coragem de ir fazer o teste por medo da confirmação. Acredito que este tenha sido o motivo pela qual estou infectado hoje, pois depois disso eu sempre me preveni e tinha muito medo de acontecer alguma coisa comigo.

Com o tempo alguns sintomas foram aparecendo, mas não me importava muito, passei por uma fase em meados de 2014/2015 na qual eu sentia vontade apenas de morrer, pensei várias vezes em suicídio, mas nunca cheguei a fazer nada, eu me sentia sozinho, nathan-anderson-260699abandonado, sem amigos, sem amores, sem ninguém, eu me perguntava todos os dias qual era o sentido da minha vida. Nessa fase eu fiquei um ano (ou mais) sem sair com ninguém. Sem sexo, sem beijo, sem carinho. Eu morava sozinho e mesmo que eu chegasse a dividir apartamento com outros colegas eu não me dava muito bem com eles. Eu achava que se eu tivesse HIV isso seria maravilhoso pois assim eu morreria rápido e acabaria com toda essa dor que eu sentia por dentro. O tempo passou e com ele a crise existencial se foi, eu comecei a aproveitar, apareceu um amor em minha vida, amigos, comecei a dividir apartamento com pessoas maravilhosas, enfim, comecei a enxergar tudo de outra forma.

No final de 2016 eu tive uma perda de peso muito elevada e uma diarreia de 15 dias seguidos, além de muita febre alta e um pouco de dor ao urinar (sintomas do início da doença). Então sai para a internet para procurar o que podia ser, e todos os sites me levavam para o HIV. Fiquei desesperado, eu não sabia o que fazer, quem procurar e com quem falar sobre o assunto. Sabem o famoso “sofrer antecipado”? Pois bem, eu sofri e sofri muito! Eu melhorei, mas sempre que eu me deitava eu me lembrava e isso me perturbava muito. Foi então há quase dois meses atrás que eu saí para beber com os amigos da faculdade (eu bebi para caralh*) e quando cheguei em casa eu simplesmente adoeci, acordei sem conseguir me mover da cama, começou a aparecer os rash cutâneos em meus pés (que coçavam/coçam sem parar), eu sentia muita fome, mas não conseguia comer, eu sentia calor e sentia frio, eu não conseguia me concentrar em nada e nem conseguia estudar para as provas que estavam acontecendo naquela semana. Foi péssimo, eu me vi mais desesperado ainda, pois novamente apareceu todos os sintomas que me indicavam a AIDS

Acho que o pior momento foi quando eu entrei no Facebook e vi umas fotos de amigos andrew-neel-117763curtindo e felizes, pois se passou toda um flashback sobre a minha vida e meus objetivos, então pensei: “não acredito que vou morrer cedo e não vou realizar nada”. Na então rede social fui conversar com um amigo sobre o assunto, cheguei de cara perguntando “Como você reagiria se você descobrisse que você tem HIV? E o que você faria se fosse com um amigo seu?” Ele me respondeu com muita clareza e tranquilidade. Eu estava aqui na frente desse computador conversando e chorando, desesperado e então decidi falar o que estava se passando na minha cabeça. Conversamos muito e então, depois de duas semanas, quando eu me senti melhor de tudo, saímos para fazer o teste… Foi ai que veio, como esperado, positivo para mim e para ele, negativo.

Uma cena que eu não consigo esquecer, foi no exato momento que entrei na sala e vi o meu teste com duas linhas vermelhas (o que indicava que eu era HIV positivo), desde então sempre passa pela minha cabeça esse momento. Eu fiquei desesperado, mas acho que, no fundo, eu fiz “ceninha”. Fui para a psicóloga e refiz o teste de confirmação. No caminho para casa percebi que o meu amigo estava mais desesperado do que eu, ele chorou, me abraçou, me consolou muito, mas eu fiquei mais tranquilo do que ele. Não teve sensação melhor do que tirar todo aquele peso (da dúvida) das minhas costas.
Claro que eu fiquei muito tenso, com medo, com muitas dúvidas, enfim, com tudo que um recém diagnosticado deve passar. Ao chegar em casa comecei a estudar fundo sobre a situação atual do HIV no mundo e no Brasil.

Eu já sabia por cima que as pessoas conseguiam viver muito bem e “normalmente” sendo portadoras do vírus. O que eu não sabia era que mesmo quem já tinha desenvolvido a AIDS também conseguia, pois sempre tive a ideia de que “se tiver o vírus e descobrir antes da AIDS vive, se descobrir já com a AIDS desenvolvida morre”, pois eu não entendia como funcionava o tratamento. Passei o dia inteiro lendo comentários e depoimentos de pessoas que vivem com o vírus e digo com toda certeza, isso foi o principal motivo para me tranquilizar. Eu vi muita gente inteligente por aqui, muita gente que passou pela mesma situação que eu, vi pessoas que foram enganadas, mas que não se deixaram levar por isso. A vocês leitores do blog, vai aqui o meu agradecimento, queria pedir para que vocês não deixem de comentar aqui, pois os seus comentários ajudam muito.

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Com apenas dois dias eu fui para consulta médica com o infectologista e logo em seguida ele me receitou uma medicação. Infelizmente, só comecei a tomar 4 dias depois da consulta, pois o dolutegravir estava em falta no CTA. Hoje faz uma semana que comecei a tomar o que chamam de coquetel (dois comprimidos, sim apenas DOIS, não são 10 ou mais como as pessoas desinformadas falam). Eu não sinto nenhum efeito colateral e tenho certo receio da medicação não estar fazendo efeito. Sei que estou tomando uma medicação avançada e os efeitos são poucos, fico muito feliz por isso, eu sinto que vou ficar bem, pois no final tudo se resolve.

Confesso que tenho um arrependimento muito grande por não ter feito o teste antes de aparecer os sintomas da doença, pois provavelmente, hoje, eu já estaria indetectável e sem me preocupar com algum tipo de doença oportunista. Mas sei que tudo tem o seu tempo certo e acho que esse foi o período ideal para eu descobrir e ter a certeza, pois já imaginou se eu tivesse descoberto na fase que eu tinha vontade de morrer? Melhor nem pensar sobre isso, né?

Hoje a única coisa que me tira um pouco a minha cabeça do lugar é a dúvida com relação emily-morter-188019ao tipo de vírus (HIV 1 ou 2) pois vejo que os tratamentos hoje são mais ideais para o tipo 1. Tenho medo de ser o 2. Eu ainda não sei qual o tipo de vírus, pois não sabia que existia uma diferença, só me informei sobre depois do resultado e da consulta médica. Não tenho muita informação sobre isso, pois estou evitando buscar informações que podem acabar me perdendo psicologicamente. Eu só quero pensar que tudo irá ficar bem e todos os meus planos irão se concretizar.

Por fim, não vejo o HIV como um problema em minha vida. Eu acredito que ser reagente só me trouxe e trará evolução espiritual. Agora eu tenho muita vontade de viver, de conseguir formar uma família, ajudar minha mãe financeiramente, conseguir um bom emprego. Meus sonhos e desejos só ficaram mais fortes e voltaram a aparecer novamente em minha vida. Me surpreendo com o quanto estou sendo forte para seguir essa luta sozinho. Além de que, sinto um desejo enorme em poder ajudar pessoas que estão passando por isso e sei que vou conseguir.

Autor: Caio, 22 anos. 13 dias desde o diagnóstico.

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Queimar opções [resistência a medicamentos]

Como não “queimar” medicações

Intro

O tratamento para o HIV nunca começou tão cedo quanto se começa agora. Até 2013, por exemplo, só era recomendado que se começasse o tratamento quando as células CD4, as de proteção, ficassem abaixo de 500 por mm3. E uma pessoa portadora do HIV pode ficar por anos e anos com níveis de CD4 acima de 500.

As coisas mudaram, em conformidade com as últimas descobertas no que tange aos danos que o HIV causa no organismo mesmo quando células de proteção estão em níveis considerados normais. O HIV, quando não tratado, causa muito mais inflamação crônica, ativação imune, demência, entre outros.

Hoje é recomendado que inicie-se a terapia antirretroviral assim que for diagnosticado. O quanto antes possível.

Nosso governo fornece medicamentos extremamente eficientes e sem ou quase sem efeitos colaterais. Lembre-se de que é 2017, não 1996.

Começar o tratamento tão cedo no curso da doença traz uma pá (grande) de benefícios e vantagens, como demonstrado por evidências exaustivas. Porém, o início da medicação também levanta algumas outras questões, dentre elas o surgimento de resistência aos medicamentos, ou a “queima” de combinações.

Basicamente ser resistente a um determinado medicamento significa que o vírus tem a capacidade de se reproduzir e trazer danos ao seu organismo mesmo na presença de tal medicamento.

Como ocorre resistência a medicamentos?

A resistência a um medicamento acontece quando há níveis muito baixos do medicamento no sangue. Insuficiente para impedir a replicação do vírus, mas suficiente para que o vírus “identifique” o medicamento.

O HIV, eu insisto, não é um vírus com intenções malignas de dominação do mundo. Ele só quer sobreviver e perpetuar a espécie. E isso se chama EVOLUÇÃO.
A evolução acontece com todas as espécies existentes na terra, a todo momento. E também acontecem com o HIV, em um ritmo mais acelerado e aleatório.

Historinha do cavalo cascudo.

Vamos pegar um cenário hipotético.
Temos uma fazenda com 100 cavalos. Há uma cerca alta e um mata-burro, uma estrutura com ripas de madeira afastadas, que permitem que seres humanos e carros passem mas que impedem que animais com cascos passem, pois o casco escorrega para o meio das ripas e prende o animal, impedindo que os cavalos simplesmente saiam do recinto.

Toda vez que um cavalo tenta sair, o mata-burro prende ele, e ele morre de fome.

Num certo dia, nasceu um potro muito estranho na fazenda! Ele parecia um cavalo normal… até olhar para os cascos dele, eram enormes, pareciam uma tampa de panela, era uma anomalia certamente, um “erro” genético.
O pequeno potro cresceu saudável apesar dos cascos ridiculamente grandes. Um certo dia, o potro desavisado colocou um de seus cascos no mata-burro, e percebeu que o casco era maior do que o espaço entre as ripas de madeira. Assim ele não ficava preso. Podia atravessar a estrutura tranquilamente e pastar a grama verdejante que havia do outro lado.
O potro cresceu. E teve filhos. Seus filhotes nasceram com a mesma anomalia dos cascos RESISTENTES ao mata-burro.

Houve uma seca terrível que exterminou com a vegetação dentro do recinto, e fez com que animais de cascos pequenos morressem. Somente os de casco grande conseguiam sair do recinto e se alimentar em locais alternativos.

Assim, os cavalos de casco grande tornaram-se a espécie predominante.

Meu exemplo pode não ser o melhor para representar a formação de HIV resistente no organismo, e realmente é muito simples para representar a complexidade da resistência viral.

Você já se perguntou por que usamos pelo menos 3 componentes em tratamento antirretroviral?

Basicamente porque são três barreiras. É o mata-burro + a cerca + a ponte levadiça. O vírus (ou o cavalo) só vai sobreviver e se replicar se passar por três barreiras. Neste caso chamada de barreira genética à resistência.

Existem medicamentos com uma alta barreira genética à resistência, que é o caso da ponte levadiça, onde o cavalo precisaria ser mutante a ponto de voar.
E tem medicamentos com uma baixa barreira genética à resistência, onde basta o cavalo ter um casco maior.

Exemplos de medicamentos com alta barreira à resistência são: darunavir/r, atazanavir/r, dolutegravir.

E baixa barreira à resistência: efavirenz, nevirapina, lamivudina.

A barreira genética de um medicamento só importa quando você não tem uma adesão perfeita ou quase perfeita. Só tem impacto quando você deixa de tomar doses.

Se você ficou indetectável em um medicamento e continua tomando ele todos os dias, você não terá nenhum tipo de resistência, nunca. Pode tomar o mesmo medicamento pelo resto da vida.

Medicamentos para HIV funcionam muito bem. Não existe isso de “Olha, que estranho… tem uma resistência aqui aparecendo”. Você sempre vai saber a causa da sua resistência. Deixou de tomar por alguns dias seguidos, parou por um mês e voltou, e parou novamente. Toma sem comida quando é recomendado tomar com uma refeição. Toma com uma outra medicação que não deve ser misturada. Tem um problema de absorção, que é raro e você provavelmente perceberia.

“Ah, mas eu nem gosto tanto assim do Efavirenz. Até bom se eu ficar resistente. Daí tenho uma boa desculpa pra trocar de medicação.”

A frase acima provavelmente saiu da minha própria mente quando eu tomava o 3×1, mas está completamente equivocada e repleta de ignorância.

Ficar resistente a um medicamento não coloca somente o funcionamento deste medicamento em risco, mas sim o funcionamento daquela classe inteira de medicamentos.

Os medicamentos que pertencem à mesma classe de ação do efavirenz são: nevirapina, rilpivirina e etravirina. Se eu ficasse resistente ao efavirenz, há chances de que haveria uma resistência cruzada. Uma resistência adquirida em um medicamento muito parecido que afeta o outro.

Sendo assim, quando você fica resistente a um medicamento, há chances de você ficar resistente a mais componentes ou a todos da mesma classe.

Eu avisei anteriormente que falar de resistência não era tão simples. E realmente não é.

Há, por exemplo, níveis de susceptibilidade. Seu vírus pode ter uma baixa resistência, alta resistência ou completa resistência. Se você tem uma baixa resistência, por exemplo, geralmente você pode continuar tomando o mesmo medicamento, mas vai ter que ter uma adesão perfeita, ou aumentar a dose do medicamento.

Pessoas que têm algum nível de resistência a inibidores de integrase, Raltegravir por exemplo, podem tomar Dolutegravir. Mas neste contexto, deve ser 2x/ dia. O dobro da dose para quem não tem resistência a esta classe.

Não pira!

Tudo o que eu falo no artigo sobre adesão é real. Real oficial.

Tomar os 3 componentes todos os dias é uma convenção da comunidade médica que funciona. Não quer ter problemas? Tome seu medicamento todos os dias e viva uma vida feliz, plena e sem stress.

Porém, por favor, não fique louco de preocupação com aquela eventual dose perdida ou com aquele fim de semana insano que você perdeu os comprimidos sendo que você já estava indetectável e com boa adesão há tempo. Não é isto que vai causar resistência.

O que causa resistência é fazer da NÃO tomada dos medicamentos um hábito. Terapia antirretroviral NÃO É remédio para dor de cabeça que você toma quando sente que deve tomar. Terapia antirretroviral deve ser contínua para ser eficaz, e É extremamente eficaz.

Trocar de medicamento causa resistência? Queima opções?

NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOO.

Eu diria que é o “oposto”. Trocar de medicamento muitas vezes vai salvar opções pra você.

Se você quer trocar de medicamento é porque você não se sente bem com o que está usando agora, correto?

Seja pela posologia, 2x ou 3x ao dia, seja pelo número de comprimidos, seja pelos efeitos colaterais, seja por interação medicamentosa etc.

Você tem motivos? TROQUE. Exija a troca do santo medicamento.

Como dito no início deste artigo, é necessário que baixos níveis de medicamento estejam no sangue para que o vírus se torne resistente E que não tenha qualquer outro mecanismo impedindo a volta do vírus.

Olha só:

Você não quer mais o mata-burro na sua fazenda porque mata muitos cavalos.

Sendo assim, você constrói uma ponte levadiça e DEPOIS retira o mata-burro.

Assim você está impedindo que os cavalos escapem, e está tirando o que não gostava!

É assim que a troca de um medicamento funciona para o HIV.

Hoje você toma o 3×1, e amanhã já começa seu novo medicamento que vai ser a nova barreira. Sem problema NENHUM.

Sim, seu antigo medicamento vai para níveis sub-terapêuticos em alguns dias, mas seu novo medicamento já estará protegendo o organismo. Então não vai ter virus solto pra ficar mutante, você vai continuar indetectável.

E mesmo que não esteja indetectável a troca é hiper segura.

Já se você não trocar de medicação, vai inevitavelmente ficar descontente com a medicação atual e vai começar a falhar frequentemente com as tomadas do medicamento. Aí você corre risco de ter resistência.

Se você sabe que não tem uma adesão boa, e que não consegue tomar remédios todos os dias. Seja por problemas psicológicos, ou sociais, ou de vício em drogas psicoativas ou álcool (que também é uma droga psicoativa), peça para usar um medicamento com alta barreira à resistência. No Brasil temos dois excelentes, o darunavir/r e o dolutegravir.
E, claro, cuide dos problemas causadores da má adesão imediatamente.

O que não pode é não fazer nada. Ficar tomando os antirretrovirais de forma aleatória e descompromissada.

A troca de medicamento pode falhar por algum motivo?

Resistência adquirida

Sempre existem aquelas possibilidades infinitesimamente pequenas, mas que nós soropositivos adoramos acreditar que vão acontecer justo conosco.

Existe por exemplo a possibilidade remota de você ter contraído um vírus que já era resistente ao medicamento que você irá utilizar.

Mas pense comigo, a terapia com o medicamento de primeira linha (o 3×1 há um tempo atrás) já deu certo com você, ficou indetectável. Ou seja, o medicamento mais exposto e usado no mundo funcionou.  O medicamento com maior risco de resistência adquirida já funcionou corretamente em você. Quais são as chances de um inibidor da protease (atazanavir, darunavir, lopinavir) que é de segunda linha não funcionar? Baixíssississississimas. Só se você contraiu o HIV de alguém que foi extensivamente tratado com várias opções e acabou por diversos motivos tendo falha virológica em todas.

Se o tratamento de primeira linha funcionou, é bem seguro acreditar que você não será resistente a nenhuma das opções de segunda ou terceira linha.

E é claro que sempre vai ter o monitoramento de carga viral depois de uma troca de medicação.

Caso uma troca não agrade você e você ache que a anterior estava melhor, pode sempre voltar. Apesar de que eu recomendaria testar diferentes opções até você se sentir 100% satisfeito e contente.

Espero ter esclarecido algumas dúvidas.
Com carinho, Derek.

Três meses de atazanavir

Usar um medicamento que causa desconforto ou complicações é muito deteriorante a longo prazo. Cheguei a esta constatação depois de mais de 1 anos tomando o 3×1. Muitos não sentem absolutamente nada, e isto é excelente. Eu senti, e foi forte, e foi longo, e foi degradante.

Há três meses decidi que não aguentava mais. Houve tentativas de troca de medicamento frustradas porque o médico dizia que minha única opção seria o Kaletra (lopinavir+ritonavir). O estranho é que eu via relatos de pessoas que saíam do 3×1 e íam direto para o atazanavir. Então por que eu não podia?
Cheguei à conclusão de que o sistema de saúde é corrompido, ou tem falta de comunicação, ou meu médico é desatento. Enfim…
Neste certo dia eu imprimi tudo o que eu podia para apoiar a minha decisão de não tomar o 3×1 nem Kaletra. Imprimi protocolos de tratamento e um formulário de pedido de medicamentos do SICLOM, um sistema para gerenciamento de portadores do HIV.

O médico, de novo, queria me empurrar o Kaletra e – pasmem! -, AZT!!!
Sendo que meu problema nunca foi com o Tenofovir.

Okay, calma…

EXPLIQUEI pro meu MÉDICO que não precisa tirar o tenofovir de mim. Uma situação no mínimo chata.

Expliquei também que estava saindo de um tempo longo cheio de efeitos colaterais, incluindo alterações no fígado, e que eu gostaria de uma terapia que não me deixasse preocupado. Uma terapia que me deixasse dormir tranquilo. E acordar bem. E viver bem.

Eu consideraria esta terapia como sendo o dolutegravir. Mas eu não me importava muito… só precisava desesperadamente sair das garras do efavirenz.

Pedi e repedi para tomar atazanavir +ritonavir + tenofovir/lamivudina. E finalmente meu pedido foi atendido. Saí de lá com três caixinhas. Não ia mais precisar tomar o 3×1. Eu nem acreditava… momento lindo.

Tomei já naquela tarde os três comprimidos juntos, em um só gole. E, neurótico como sou, esperei pelos efeitos colaterais de maneira cronometrada.

Uma, duas, quatro… dez horas depois e… nada. Eu não senti nada. Nem vômitos, nem diarreia, nem dor de cabeça, nem tontura. Realmente um descanso físico e mental tinha chegado para mim.

Acho que muito em breve devo passar por mais uma troca, pois, ao final da primeira semana com atazanavir, eu já estava bem amarelo. Pele e olhos.
Muito perceptível para mim, a ponto de eu ficar relutante para olhar para as pessoas nos olhos. E isso inclui pessoas do trabalho, amigos que não sabem da minha condição, pessoas do comércio, família.

Amo o atazanavir. Ele não me traz nenhum efeito colateral debilitante. A única coisa é o amarelamento mesmo.
Este amarelamento, chamado de icterícia, é completamente benigno e até faz em para o coração por acontecer devido a um poderoso antioxidante, a bilirrubina.
É uma pena que vou ter que deixar essa terapia no passado. Mas espero que a próxima seja tão bem tolerada quanto esta. E provavelmente será o Darunavir.

Aids no Carandiru

Amo o Drauzio Varella por seu trabalho. Não só pelo trabalho ativo sobre a condição que me afeta, mas também pelo seu trabalho com todas as doenças que atingem as mais diversas populações.

Sei também que suas generalizações são do bem. Elas têm a intenção nobre de abrir nossos olhos.

Porém, eu gostaria de propor uma reflexão alternativa. Eu discordo que a maioria dos jovens tenha perdido o medo do HIV. Vou até além: acho que é só MEDO que os jovens têm.

O que os jovens não têm é o medo bem fundamentado. Eles não possuem o embasamento científico para dar sustentação aos seus medos e, por este motivo, o medo acaba sendo diluído em meio a tantos outros sentimentos.

Eles têm medo dos horríveis efeitos colaterais, da mudança da aparência, das manchas pelo corpo, da lipodistrofia. E qual é o efeito maligno disto?
Basta encontrar uma pessoa aparentemente saudável para que todo este medo se desfaça. Basta que o namorado seja fofo para que o HIV seja eliminado da sua mente. Basta uma feição ingênua para dissolver os medos.

Isso quer dizer que o medo não funciona como arma para prevenção? Claro que funciona!

Medo é um sentimento humano, natural, útil, e que faz parte do dia a dia. Então, se o sentimos de qualquer maneira, que seja de uma maneira digna e verdadeira. Assim, o resultado é mais duradouro e consistente.

De que adianta colocar medo em mim falando de um passado que não existe mais com tanta intensidade? Sendo que, como não verei este tipo de situação tão facilmente, logo descreditarei este medo.

As pessoas devem sim evitar contrair HIV, de todas as formas possíveis. E por quê?

Porque, neste momento, os medicamentos ainda podem causar efeitos colaterais. Apesar de muito mais seguros e bem tolerados, e com muitas opções de troca.

Também podem ter medo de ter que tomar antirretrovirais diários por décadas, que é o que provavelmente vai acontecer. Comigo e com praticamente todos os soropositivos do Brasil.

Pode ter medo do estigma e da discriminação porque, sim, ela ainda existe com bastante força em 2017. E vai continuar existindo por um tempo.

São vários os motivos para se ter medo de contrair HIV em 2017, mas não são as imagens de 30 anos atrás que devem ser o combustível desse medo. São as imagens de AGORA que devem ser a força motriz do medo. É a educação que deve trazer medo, o medo bom.

Assisto às imagens da AIDS no Carandiro e claro que lacrimejo. A porra é forte. E claro que aumenta minha adesão aos medicamentos imediatamente. Mas aí que está, este medo é tão impactante que se dissocia da realidade com muita facilidade.

Eu prefiro contar com o medo proporcionado por tudo o que aprendo em estudos científicos. Este me mantém racional e no caminho.

 

Hêider Pinto: Decisão do Ministério da Saúde provocará aumento de doenças, mortes, tempo de espera e filas nos serviços públicos do País

26 de janeiro de 2017, Brasília, Ministério da Saúde, reunião da Comissão Intergestores Tripartite, para discutir medida do ministro Ricardo Barros e do presidente Michel Temer.

Em breve, esse fatídico dia será conhecido como aquele no qual foram tomadas decisões que iniciaram o mais danoso e perverso retrocesso no financiamento e na estrutura da Atenção Básica e Vigilância em Saúde no Brasil.

Atenção Básica diz respeito aos serviços públicos de saúde próximos às nossas casas e que são capazes de resolver o problema de oito em cada dez pacientes/cidadãos atendidos.

No mundo inteiro, os sistemas de saúde mais custo-efetivos – por exemplo, Canadá e Inglaterra — têm um ponto em comum: forte investimento na atenção básica para que tenha boa estrutura, bons profissionais, acesso amplo e seja muito resolutiva.

No Brasil, fazem parte da Atenção Básica, entre outros serviços e ações: Saúde da Família, Agentes Comunitários de Saúde, Mais Médicos, a maior parte do Brasil Sorridente, Saúde na Escola, Núcleos de Apoio à Saúde da Família, com psicólogos, fisioterapeutas etc.

A Vigilância em Saúde, por sua vez, é responsável por:

*Controle e ação de combate a epidemias, como dengue, zika, febre amarela, meningite e aids.

*Ações que evitam o aumento de certas condições de saúde, como a obesidade, tabagismo, doenças crônicas.

* Prevenção de várias doenças por meio do programa de imunização (vacinas) do Sistema único de Saúde (SUS).

* Fiscalização de alimentos, medicamentos, água, supermercados, restaurantes, empresas, locais de trabalho, portos e aeroportos, clínicas privadas de saúde.

Continue lendo no site que postou. 

Meus antirretrovirais… ninguém sai!

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O HIV deixou de ser uma infecção quase inevitavelmente fatal no início da epidemia para se tornar uma condição tratável. Séria e nada trivial, porém, tratável. Na verdade, uma das condições que possuem alguns dos mais modernos medicamentos já criados.

Palmas pros ARVs¹?

  1. Foram criados em tempo recorde. A AIDS não era uma doença que vinha incomodando seres humanos da América do norte há anos. Foi um surto de infecções muito pronunciada em um curto período de tempo, e era altamente letal.
  2. São extremamente eficazes. A terapia tripla, que é o padrão de tratamento hoje em dia, funciona de maneira incrível. Suprime o HIV por completo no organismo. A carga viral, que antes flutuava na casa dos milhares ou milhões, agora fica indetectável. Testes com capacidade de detectar até 20 cópias do vírus não conseguem mais detectar nada na corrente sanguínea.
  3. São bem tolerados. Praticamente qualquer medicamento pode causar efeitos colaterais. Muitos de nós não percebem isto pois não os tomam de forma contínua. Aspirina em doses baixas pode causar sangramentos estomacais, por exemplo. Paracetamol (acetaminofeno) pode causar terríveis problemas ao fígado. Mas são bem tolerados quando usados esporadicamente. Antirretrovirais também são geralmente bem tolerados e extremamente seguros, mas precisam ser tomados por anos ou décadas. ESTA é a diferença.

ARV, seu lindo!

Os antirretrovirais modernos foram criados pensando em uma vida inteira de uso.

Não confunda a situação de 30 anos atrás com 2017, por favor.
Também não confunda o caos de muitos países com a facilidade do tratamento no Brasil.

Estamos em 2017, e estamos no Brasil. Este ano promete uma grande modernização nas terapias utilizadas no SUS. Terapias mais humanas, mais eficazes, muito melhor toleradas e com posologia confortável. O Ministério da Saúde até mesmo excluiu os antirretrovirais de uma categoria especial e agora os trata como medicamentos comuns que podem ser transportados como qualquer outra droga.

O dolutegravir foi enviados a todos os estados no dia 16 de janeiro e já está até descrito como terapia preferencial no formulário de preenchimento dos CTAs². Deve estar quase chegando no seu CTA ou ambulatório. Se é que já não chegou e está lá disponível para você. Um medicamento novo e extremamente eficaz em baixas doses. Somente 50mg por dia para suprimir o HIV, claro, em conjunto com o 2 em 1 (tenofovir + lamivudina).

O Kaletra (lopinavir+ritonavir) deve parar de ser recomendado em breve. Dando lugar a dois outros inibidores da protease muito melhor tolerados: o atazanavir e o darunavir.
Tudo graças à baixa de preços e compra de genéricos de ambas as medicações.

O temido efavirenz vai ser colocado como terapia alternativa. Para quem começou a tomar o dolutegravir e não se sentiu bem, teve efeitos colaterais indesejados, ou porque simplesmente prefere um só comprimido e não sente efeitos colaterais com o efavirenz.

Exames para identificar hipersensibilidade ao abacavir estarão mais acessíveis neste ano. Abacavir é um bom substituto a quem não pode tomar tenofovir, seja por que tem problemas renais ou porque sofre com perda óssea.
Não temos TAF (versão melhorada do tenofovir), mas temos abacavir. É bom o suficiente por enquanto.
Esta maior disponibilidade de abacavir pode também dar maiores chances para que o dolutegravir venha para o Brasil coformulado com lamivudina e abacavir, chamado de Triumeq no exterior.

Os medicamentos mais antigos estão finalmente sendo retirados das vidas das pessoas. Muitos já pararam de tomar AZT e foram para o tenofovir. Outros muitos já substituíram o fosamprenavir ou saquinavir por inibidores da protease mais modernos, como o darunavir. A didanosina está sendo retirada de circulação também, para o bem geral da humanidade e comunidade soropositiva. Não se fala muito mais da nevirapina também.

Neste momento, a TARV (Terapia Antirretroviral) no Brasil parece verdadeiramente moderna e avançada. Quase equivalente ao tratamento disponível na Inglaterra, onde uma das diferenças mais visíveis é que todos estes medicamentos fazem parte da primeira linha, não sendo necessário avançar degraus para chegar a uma boa terapia. Chegaremos lá, sem dúvidas.

Aqui estamos até mais avançados do que a Inglaterra em pelo menos um aspecto: a aprovação da PreP, a profilaxia pré-exposição com Truvada (tenofovir+emitricitabina). Enquanto na Inglaterra a aprovação parece distante e complicada, no Brasil a conversa parece bem mais aberta e amigável. É questão de tempo.

Com certeza ainda há muito a se fazer. Não cruzamos a linha de chegada, e jamais cruzaremos. Será um processo de melhoria contínua. Mas hoje eu quero comemorar os avanços biomédicos. Quero celebrar a vinda de novas terapias. Desejo que estas excelentes terapias melhorem ainda mais ao longo do tempo, e que estejam disponíveis a todos.

Aos negros, homens que fazem sexo com homens, gays, transsexuais, mulheres, heterossexuais, índios, pobres, usuários de drogas, moradores de rua, imigrantes… a todos. Assim também dar a estas pessoas mais possibilidades para mudarem o rumo de suas vidas.

Parabéns à sociedade civil pela luta e ativismo. Também às instituições que tanto nos apoiam. Parabéns aos seres humanos que fazem todo este movimento dar certo.

¹ antirretrovirais
² Centro de Testagem e Aconselhamento

Chat vHIVo no KIK

Muitos recém diagnosticados e pessoas que são soropositivas há mais tempo têm a necessidade de troca de experiências. Assim como qualquer outro grupo, nós fazemos parte de um ou vários grupos. Um deles é que estamos no mesmo barco em termos de sorologia.

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