Diagnóstico

Perdido

Um dia comum, uma manhã muito normal e familiar. Saí cedo de casa pois precisava da cópia autenticada de um documento, e eis que na rua do cartório se encontra o CTA do meu bairro. Atrás de algumas árvores que logo devem ser cortadas, mas ainda melhor do que qualquer prédio “nu”.

Entrei, me identifiquei e disse que gostaria de fazer um teste de HIV. Já estava namorando há 2 meses, estava mais do que na hora de ter o desencargo de consciência.
A entrevista pré-testagem é rodeada de perguntas embaraçosas, ainda mais para mim, sendo gay. Mas tudo bem, aos 24 anos não é mais tão invasivo.

Meu sangue foi retirado do modo antigo, com uma seringa. Depois um pouco de sangue em cada um dos testes rápidos de DSTs.
Uma espera de 15 minutos que sempre parece anos. Uma moça chama a outra, elas cochicham.

“Por que estão sussurrando? Não tenho HIV, né?! Putz… eu me cuidei, relaxa, Derek, relaxa.” – Meus pensamentos estavam a mil por hora.

“Derek!”Chama uma das agentes de saúde.

Sento naquela cadeira esperando pelos três não-reagentes que eu merecia. Eu era um bom garoto. Não era promíscuo, não traía, nunca tinha participado de uma orgia louca ou ménage à trois.

“Então, Derek… Negativo pra sífilis, não-reagente para hepatite C…”

Por que o de HIV por último, moça? Quer me matar?

“Mas”

E naquele milésimo de segundo entre o “Mas” e o resto da frase meu coração parou. Aquele engolir de saliva sem saliva alguma. Não podia estar acontecendo comigo.
Sempre sofri por antecipação, mas nenhuma vez foi mais dolorosa do que estes milésimos de segundo antecipados.

“Mas é reagente para HIV…”

Não, não, não. Por favor, não.

“Não sei se você sabia…”

Meu corpo inteiro paralisou e amorteceu. Eu estava completamente inerte, atordoado. Queria estar morto, porque doeria menos.
Não sentia mais a cadeira na qual eu estava sentado, não via mais a agente de saúde, os móveis começaram a se afastar, meu coração ainda parado.
Uma paz gigante, talvez pena de mim mesmo, me acometeu. Me sentia um bebê renascendo, e queria que alguém cuidasse de mim.

Estava confirmado. Três REAGENTES carimbados em um pedaço de papel. Não adianta, Derek, não tem cura. Essa vai ser a sua vida. Uma vida de REAGENTE.

Minha primeira frase foi: “Meu Deus, minha vida vai mudar.”

Caminhei nas ruas voltando para a república de estudantes onde moro. A calçada parecia de algodão ou de nuvem, bem macia. Não sentia meu corpo, só sentia minha mente.

Queria ser atropelado, para poder desistir de uma forma mais nobre. Queria que tirassem aquilo de mim. Imaginava um aparelho como de hemodiálise filtrando meu sangue e tirando o HIV, ou trocando meu sangue.

Queria que tudo acabasse. Mas não acabou, e hoje sou feliz de novo.