É fácil viver com HIV?

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Independente da resposta para a pergunta que dá nome ao post, saiba de uma coisa que é certa e absoluta: É bem mais fácil viver sem HIV do que viver com HIV!

O que não torna automaticamente o fato de ter HIV, em 2017, um fardo terrível de se carregar. Apesar de ser isto que muitos acreditam. Inclusive muitos soropositivos, muito provavelmente pelo estigma que ainda é sofrido.

A primeira desvantagem óbvia de se ter HIV é que você carrega em seu corpo uma doença infectocontagiosa, que depois que você se torna indetectável e permanece indetectável, NÃO SE TRANSMITE MAIS POR VIAS SEXUAIS. As pessoas acham que somos uma arma com o dedo no gatilho, mas isso é fantasia.

Porém, foi assim que me senti nos primeiros dias também, como uma arma com odeio no gatilho. Um ser viscoso, um ser que exala um vírus que não tem cura.

Ignorância. Tamanha ignorância.
Ser ignorante nos faz sofrer muito mais do que precisamos sofrer. Porque sofremos por coisas que realmente são terríveis, mas são mentiras ou reprodução da ignorância.

Tente aceitar os fatos

O primeiro passo para viver uma vida soropositiva para o HIV com alegrias é o quanto antes possível aceitar sua sorologia.
Deu positivo, então Okay, é isto. Atualmente nada é possível fazer para tirar esta condição. Você vai enormemente minimizar os efeitos do vírus no seu corpo de forma gratuita pelo SUS até que uma cura esteja disponível.

1) HIV não é uma entidade maligna

HIV é um vírus, assim como o da gripe. O que acontece é que por um infortúnio do destino este vírus tem grande afinidade com os receptores das nossas células CD4.
Entra nelas e se reproduz para dar continuidade à sua espécie.

Como se nós seres humanos não sugássemos as energias e recursos de outros seres vivos para dar continuidade à nossa própria espécie, né?!

O HIV é um vírus que pode levar à morte, e de fato já levou milhões de pessoas. Mais de 30 milhões. Porém, depois de 1996, tratamentos altamente eficazes começaram a ser utilizados, e a partir de então só morreu que não tomou por diversos fatores ou tomou incorretamente sua medicação.
Aqui podemos incluir políticas públicas que não conseguem entregar a medicação aos que precisam, ou políticas que alimentam o estigma e afastam as pessoas do sistema público de saúde.

Depois que sua carga viral ficar indetectável, a possibilidade de você transmitir o vírus é próxima a ZERO. Até hoje ninguém, NIN-GUÉM, transmitiu o vírus tendo carga viral indetectável.

Depois que sua carga viral fica indetectável, você é mais parecido possível com uma pessoa que não tem o vírus, com uma única diferença básica, precisa tomar seu ou seus comprimidos todos os dias.

Tomar os remédios por uma semana NÃO faz sua carga viral ficar indetectável, só o exame do laboratório dirá. E você não mede a carga viral todos os dias, então use camisinha mesmo com seu parceiro monogâmico sorodiscordante, pelo menos até vocês criarem cumplicidade e confiança suficientes e até o parceiro soropositivo ficar e permanecer indetectável.
Ou até que a PrEP esteja disponível no Brasil, o que deve acontecer logo.

Sem contar que você não vai querer contrair hepatites virais, sífilis, gonorreia, etc. Use camisinha, vale a pena.

No glove, no love. = Sem luva, sem amor.

2) Você vai viver bem

Primeiramente, se você está lendo este texto é porque contraiu o vírus em uma época onde as pessoas não precisam mais morrer de AIDS, que é o estágio que geralmente aparece depois de uns 5 a 10 anos com o HIV no corpo.
Pelo menos não no Brasil, onde a medicação é distribuída de forma gratuita. E melhor ainda, medicamentos altamente eficazes e seguros recomendados pela Organização Mundial da Saúde são distribuídos como primeira linha de tratamento!

Lamivudina (300mg) / Tenofovir (TDF 300mg) + Dolutegravir (DTG 50mg)

O dolutegravir começou a ser distribuído no final de 2016 para quem inicia o tratamento. Uma vitória para os recém-diagnosticados no Brasil neste momento da nossa história. E acredito que num futuro nada distante, pacientes que utilizam outros medicamentos poderão passar para o dolutegravir também.

3) O seu dia a dia continua. Exatamente igual.

Considere sua vida normal até que ela se torne NORMAL. Até por isso eu acho um pouco inútil contar sobre a minha sorologia para as pessoas, por enquanto.
Contar para quem não está plenamente preparado para saber é só levar mais sofrimento à pessoa e também a você mesmo. Você tem o vírus, então vai ter que entender, vai ter que pesquisar, vai sentir como é o tratamento, então inevitavelmente vai aceitar a própria sorologia.

Mas alguém que não tem HIV vai pensar que você está sofrendo, que está se corroendo e que pode morrer a qualquer momento. E esta pessoa não vai ter a sua garra para pesquisar a fundo, pois não é com ela que está acontecendo. Então há chances de que ela fique na eterna e sofrida ignorância com a imagem de 20 ou 30 anos atrás.

A escolha de contar é sempre sua. Você pode se sentir bem contando para absolutamente todo mundo, e tudo bem quanto a isso. Se você tem um sistema de apoio legal, é provável que você se sinta muito melhor.

Esta não é a realidade da maior parte das famílias brasileiras que ainda ligam HIV com podridão, promiscuidade, falta de ética e moral, e por aí vai.

Acredito que, depois do diagnóstico, você evite tomar decisões. É provável que sua mente esteja pensando em todas as possibilidades e impossibilidades que a infecção pelo HIV traz. A não ser que você tenha lido este texto antes de contrair HIV. 😉

4) Idas ao médico

O tratamento do HIV é muito mais tranquilo neste sentido do que muitas outras doenças pelo mundo afora.

O diagnóstico é rápido e sigiloso. Muitas vezes basta uma picadinha no seu dedo e a espera de uns 10-15 minutos.

Depois de receber o diagnóstico positivo para HIV, você vai para o próximo passo, que é fazer o seu primeiro grande exame que deveria incluir principalmente CARGA VIRAL e CONTAGEM CD4.

Cargaviral é o número de vírus que estão em uma gota, ou 1mm3, do seu sangue.
Uma carga viral considerada baixa fica geralmente abaixo de 5.000 cópias/mm3, uma carga viral alta de HIV varia de 100.000 aos 1,2,3 milhões. É necessário iniciar o tratamento imediatamente principalmente nestes casos.

Contagem CD4 é o número de um tipo células de defesa também presentes por mL de sangue. Uma pessoa saudável tem entre 450 a 1600 células destas. E ter 1300 não significa que você seja mais protegido do que uma pessoa que tem 450 células.

As diretrizes para tratamento mudaram ao longo do tempo, e com a evolução e menor quantidade de efeitos colaterais dos medicamentos.

No início, tratava-se quem tinha menos de 200 células CD4, o que dá o diagnóstico de AIDS. Depois passou para 350 células. Depois foram 500 células. E agora, no nosso amado Brasil, todas as pessoas vivendo com HIV, mesmo tendo 1000 células podem iniciar seu lindo tratamento antirretroviral, para viver menos preocupados, viver uma vida longa, não transmitir HIV e se sentir cuidando da própria saúde de maneira ativa.

No seu primeiro exame, é provável que seja feita uma bateria quase completa de exames. Com atenção especial para função renal e hepática.

Você vai (ou deveria) fazer exames mais frequentes até ficar com carga viral indetectável, depois os exames ficam mais espaçados de modo que você só tiraria sangue a cada 6 meses.

Não é perigoso ficar 6 meses sem ver como está minha carga viral e CD4?

Se você chegar ao indetectável, não. Porque sua medicação é duradoura. Sua terapia antirretroviral somente irá falhar se:

  • Você tiver um virus resistente à medicação, por ter adquirido um vírus já resistente da pessoa de quem você contraiu o HIV;
  • Se você não tomar a sua medicação completa consistentemente, pelo menos 90-95% das doses, o equivalente a umas 28 doses por mês.

Você só fica indetectável enquanto toma sua medicação. HIV não tem cura, então assim que você para os remédios, o HIV volta com alta carga viral e começa novamente a baixar suas células de defesa.

 

4) Viva sem efeitos colaterais

Todas as combinações iniciais de medicamentos são excelentes em suprimir o vírus, ou seja, deixar sua carga viral abaixo dos níveis de detecção dos testes: INDETECTÁVEL.
Para que isto aconteça é indicado que você tome a medicação todos os dias, sim, todo santo dia. Seja um comprimido, sejam dois ou três. Tome-os sem falta.

Para que isto seja alcançável, lute pelo seu bem estar. Se você não tiver efeitos colaterais também não vai se importar em tomar a medicação da forma correta.

Seu infectologista vai alertar sobre os possíveis efeitos colaterais iniciais e passageiros, os quais acontecem nas primeiras semanas ou meses até seu corpo se acostumar com a medicação.
Esta medicação nova, o dolutegravir, não causa efeito colateral nenhum na maioria dos casos. E quando acontece, o efeito colateral mais comum é insônia.

Comecei minha terapia no final de 2015 com efavirenz, um dos componentes do 3×1. Foi uma experiência bem desagradável para mim. Mudei para outro chamado atazanavir que é maravilhoso. Mas logo espero estar no dolutegravir também.

Atualização 30 de maio de 2017:

Muita coisa mudou desde que escrevi este post. E eu atualizei hoje várias informações nele, como a adição do dolutegravir à primeira linha de tratamento. Uma vitória incrível para quem está iniciando a terapia agora, pois provavelmente não sentirá nenhum efeito colateral, e isso é incrível.

Comece seu tratamento!
Faça o teste caso não tenha feito ainda. Não há o que temer!

Resumindo: O Brasil tem um arsenal bom o suficiente para oferecer a você um tratamento sem ou quase sem efeitos colaterais intoleráveis. Lute pelo seu bem estar.