Por que ainda não morri?

É triste estar à beira da morte. E foi assim que me senti quando recebi a notícia de que “finalmente” era soropositivo.
Eu sabia sim que existia vida após o POSITIVO, mas achava que era uma “meia-vida”, uma vida de fachada, uma vida com a incerteza da morte.

Até porque sempre me neguei a saber como era uma vida com HIV. Só o pensamento de um dia ter que pesquisar sobre uma vida soropositiva já era suficiente para me tirar noites de sono, semanas de sono quando o teste ainda demorava 15 dias.

Nunca quis saber como era “isso”.
Nunca quis ser “isso”.
Nunca quis passar por “isso”.

Estou passando, e estou vivendo, e às vezes até brincando com isso.
Sempre me considerei um homem resiliente, e sou um.
Sou um homem gay resiliente.

A lástima estampada nos olhos da agente de saúde jamais vai sair da minha mente. É uma imagem que jamais vai me abandonar e com a qual vou aprender a conviver, ou até modificar. Talvez o que eu vi não foi o que aconteceu, foi o que eu quis sentir. Eu quis sentir pena de mim mesmo, pois às vezes a pena salva.

Não quis sentir raiva, nem de mim nem do mundo, nem de quem me deu a notícia. A raiva me faria cometer atrocidades em um momento tão complicado.

Falei “Minha vida vai mudar”, e a agente assentiu com a cabeça. Reconheço que ela estava completamente certa, cheia de razão. Até porque ela já viu a mesma história se repetir dezenas, se não centenas, de vezes.

Porém, quando eu disse “Minha vida vai mudar”, ainda em choque pela notícia, era outra imagem de mudança que passava pela minha mente. Eu imaginava que seria um verme que toma medicamentos o dia inteiro, que teria olheiras profundas dos anos de choro e culpa incessantes, que meu corpo mudaria e eu perderia minha juventude de uma vez por todas.

Eu estava errado, ainda bem.

Depois do grande choque inicial começa a procura por informações, a procura pelo conforto da ciência, se é que existia. E depois de passar alguns sofridos dias sem dormir bem, com pesadelos horrendos, dormindo e acordando com o pedido da cura milagrosa e do erro improvável dos testes rápidos, a realidade começou a se apossar da minha mente.

Finalmente comecei a ver um raio de luz indireta, lá no fim da caverna. Uma fagulha de vida me chamando para recomeçar a viver também. Esta luz na verdade, eram os sites que encontrei e que me ajudaram a sorrir de novo, posso certamente citar o jovemsoropositivo.com com os textos extremamente bem escritos, estruturais e atualizados. Pela primeira vez, lendo os artigos do JP, me senti aliviado e acompanhado. Novamente senti que fazia parte de um grupo.

Foi só depois que encontrei sites de extrema confiança e com informações atualizadas que descobri que eu não só não morreria como poderia ter uma expectativa normal ou muito próxima da população em geral, só então soube que minha meta não era diminuir um pouco o vírus no sangue mas sim eliminar a replicação viral até que os testes nem sequer detectassem mais o HIV, soube também que eu não transmitiria o vírus para ninguém depois de ficar indetectável e continuar fielmente tomando minha medicação, que não transmitiria nem com nem sem camisinha, soube também que a lipodistrofia era uma condição de medicações mais antigas e que eu não seria exposto a estes medicamentos.

Às vezes paro para pensar, e sou grato por tudo o que aconteceu comigo. Isto inclui a infecção pelo HIV, até porque não posso menosprezar o que o vírus me trouxe de bom, como o entendimento menos fantasioso do que é a vida, e do quão não-invencível eu sou, do quão humano e falho eu sou, e ao mesmo tempo do quão normal eu sou.