Efeitos colaterais do efavirenz e suicídio

head-and-heart

Trago hoje um texto escrito por Matt Ebert para o site TheBody.com.

A maior parte das pessoas que usam o efavirenz não sente efeitos tão dramáticos, mas este é um bom alerta para os que sentem efeitos colaterais continuamente e não desistem do medicamento.

Link original em inglês.

Boa leitura!

 

Os efeitos colaterais do efavirenz incluem risco de suicídio; poderia ter sido eu.

Todos os anos aparecem relatos acerca do efavirenz (Sustiva, Stocrin), contra o vento de uma época que jamais vou esquecer. São lembretes de algo que tenho estado ciente há uma década: Os efeitos colaterais deste medicamento podem incluir suicídio com taxas claramente elevadas naqueles que já possuem alguma doença mental ou usam drogas de rua.

Usei efavirenz por anos. Em 6 meses depois de parar o medicamento completamente, eu normalizei. Pela primeira vez em anos eu não me sentia submerso em pensamentos suicidas, vícios e males de saúde mental debilitantes. Durante os piores anos da minha vida, conheci vários homens que usavam Atripla (efavirenz, tenofovir, FTC) que foram em frente e cometeram suicídio ou overdose. Eu poderia muito bem ser um deles.

Cruzando a barreira sangue/cérebro

Em 2002, eu estava morando em Los Angeles e meu médico decidimos tentar o medicamento efavirenz, sob o nome comercial Sustiva. O mesmo havia entrado no mercado com uma grande folia pois era considerado muito bom em cruzar a barreira sangue/cérebro, ou hematoencefálica.

Antes do Efavirenz, pensava-se que os reservatórios do HIV no cérebro eram os mais difíceis de atingir ou destruir Meu médico descreveu para mim desta maneira: Piscinas de vírus estavam impedindo que eu ficasse “indetectável”. Um medicamento que cruzasse a barreira sangue/cérebro poderia trazer um grande avanço para o meu tratamento. E por isso, me sugeriu o Sustiva.

Assim que adicionamos o Sustiva à minha combinação eu fiquei indetectável em uma questão de 2 semanas. Mas agora eu tinha noites mal dormidas e sonhos nada agradáveis – alucinações durante o sono talvez sejam uma melhor forma de descrever. Ouvi falar que, em lugares como a África do Sul, as pessoas estavam amassando o efavirenz e fumando, chamavam esta droga de whoonga, um crack alucinógeno. Com 600mg por noite, o efeito em mim era instantâneo: o efavirenz estava batendo forte nos receptores 5-HT (2a) do meu cérebro, como uma viagem de ácido de AIDS.

Fazendo o que meu médico havia me pedido, eu mantinha um diário de sonhos. Em menos de três meses eu havia preenchido ele inteiro e pedido outro. Mas algo mais sinistro estava a caminho. Eu estava sem dormir direito, deprimido e perdendo minha vontade de viver.

Começou com uma rápida passada pela depressão e por abuso de drogas. Sempre fui fraco para vício em álcool e drogas. No início de 2003, aproximadamente 8 anos sem usar heroína, comecei a fumar mais maconha, beber whisky puro e tomar medicamentos para dormir e clonazepam para ansiedade. Benzodiazepínicos e finalmente opioides foram os próximos. Eu estava em um pavio queimando lentamente em direção à morte.

Não vire o barco da supressão viral

Reclamei sobre tudo isto com meu médico: o comportamento viciante, pesadelos, problemas para dormir, depressão debilitante e pensamentos constantes de me acabar em maneiras bem mais violentas. A resposta era sempre a mesma: Os sonhos vão passar; descanse, vai ficar melhor. Mas nunca ficou.

Quando atingi o indetectável, falaram para eu não jogar isto no lixo. Naquela época, tal qual é agora, a teoria era que se algo estava funcionando, não se deveria mudar a combinação. E se nenhum outro antirretroviral funcionasse? Ou pior, se eu ficasse resistente ao próprio medicamento que estava funcionando?

Em torno de 2002, estávamos em um momento da história onde finalmente o HIV era considerado uma condição de saúde crônica e tratável. Deveríamos todos  nos sentir sortudos, certo? Errado. Eu me sentia de qualquer maneira, menos sortudo. Estava consumido pelo vício. Minha mente bipolar estava se balançando sobre um abismo profundo. Se antes do efavirenz minhas mudanças de humor eram de leve a moderadas, depois de iniciar o efavirenz as mudanças de humor passavam por cima do canal que separa a Inglaterra da França e voltava.

Pior ainda, pensamentos incessantes de suicídio me engoliam todos os dias. Não parava de ficar obsessivo, e não conseguia conversar sobre isto tampouco. Não vivemos em uma cultura que tolera o suicídio, então falar sobre suicídio raramente é uma opção, até ser tarde demais. Não conseguia passar sobre uma ponte, ou perto de uma loja de armas, ou ficar parado em um carro estacionado por muito tempo, ou olhar para os frascos de remédio no meu armarinho sem pensar: Eu deveria simplesmente me matar e acabar logo com isso.

Hospitais, Rehabs, Cadeia e aquele arco-íris Afegão

De 2003 a 2005 eu tentei. Tive overdose 9 vezes.

Eu acordava em uma sala de emergência com uma pulseira vermelha e meu corpo amarrado a uma maca. Eles me reanimavam com água e sal, colocavam minha carcassa em uma cadeira de rodas em um elevador e jogavam meus ossos em uma clínica psiquiátrica obrigatória por dias. Eu fui institucionalizado, ora sim ora não, por uma boa parte de dois anos, e culpei tudo menos o efavirenz.

Fui para várias clínicas de reabilitação também. Depois de 30, 60 ou 90 dias eu era solto nas ruas,  cambaleava desnorteado por menos de um dia, depois me drogava e tinha overdose de novo. Quando era expulso de casas de sobriedade e casas de grupos com a velocidade e som de portas batendo, e quando eu não estava hospitalizado ou preso, eu estava vivendo fora do meu carro.

Um dia, depois de rabiscar um pouco meu diário dos sonhos, coloquei o mesmo no teto do meu carro e dirigi pela rodovia I-5. Capotei, e quando os policiais chegaram, meu carro estava tão cheio de comprimidos, maconha, efavirenz e álcool que eles me colocaram em uma cela de prisão por uma semana. Fiquei sentado, vomitando e testemunhando o meu detox alucinógeno de uma semana. Posso te dizer que no Prédio de correção das Twin Toweres (Twin Toweres Correctional Facility) – Uma das prisões provinciais de Los Angeles – ninguém tinha medicamentos. Eu deveria estar grato: Era o único lugar de Los Angeles onde eu não conseguiria o efavirenz.

Assim que saí, acabei parando em uma galeria de injeção de drogas. Tinha sangue nas paredes, tinha uma pintura descascada e uma parede meio temporária da parada gay, mostrando um afegão esticado no salão principal, colorido com cores desbotadas – apodrecendo, cheirando mal. Homens jovens, agora estirados por conta da metanfetamina – uma vez viris, agora virais – poderiam levar brincadeiras para casa para festejar e brincar.

O sol que vinha pelas janelas fazia manchas de queimadura em nossos rostos; raios ultravioleta empurravam-se através dos espaços vazios do crochet como se fosse uma peneira, e manchava nossa pele como lesões de Sarcoma de Kaposi. Neste ambiente, os homens ainda amavam. Corações desesperados ainda batiam em todos os cantos. A maioria tinha HIV, ou o que chamávamos de full-blown AIDS, quando já havia infecções oportunistas se instalando, e todos nós éramos viciados. Os antirretrovirais ainda eram servidos todas as noites, assim como meth cristal e heroína de rua.

Uma vez acordei de um blackout de três dias descalço em Hollywood. Queimado do sol e desidratado, eu não fazia a menor ideia para onde tinham ido terça, quarta e quinta-feira. Eu estava saindo da prisão na segunda,  indo para minha milésima casa de sobriedade, e quando acordei – olhando fixamente para meus pés sujos e descalços – era sexta.

Mais perto da morte, aproximando-me do fim, faminto e calejado, sem qualquer identificação ou recursos, eu saí daquela semanada pedindo esmola no Boulevard Santa Monica. Não fui muito longe. Fui capturado e mandado de volta à prisão por vadiagem. Eu estava devastado, varrido como um monte de poeira.

Em uma noite, sem mais nem menos – não sei de onde consegui a força – eu escrevi na parede do quarto que eu compartilhava com outros drogados “sóbrios”, “Me recuso.” No dia seguinte o homem que alugou o quarto para mim explodiu os próprios miolos com uma arma. Encontrei ele no quintal entre os pés de rosa vermelha. Apaguei muito do que vi naquele dia, mas o som do “PÁ!” foi um dos que jamais vou esquecer – aquele “páh!” mudou tudo.

Me recuso

“Me recuso” se tornou um tipo de mantra. Me recuso a usar suas drogas. Me recuso a  sair como um palhaço. Me recuso a morrer como um viciado se deteriorando.  Me recuso a passar outro dia no inferno, reabilitação ou cadeia. Assim como muitos outros, eu achava que o meu problema era o vício. Agora acredito que a causa mais profunda eram os efeitos colaterais do efavirenz. Eu não tinha vontade de viver e minha mente estava muitas vezes presa em uma onda suicida.

O termo apropriado é efeitos do sistema nervoso central. Hoje em dia, a toxicidade do SNC é a  causa número um para as pessoas pararem de tomar o efavirenz.

Comecei a fazer pulseiras com a inscrição “Me recuso” na terapia ocupacional, e entregava-as a qualquer paciente que as quisesse. Logo depois, recusei meu efavirenz. Na verdade, parei todas as medicações para o HIV em 2004. Eu estava tão suicida que parecia que uma morte de AIDS seria um alívio.

Anos depois, meu melhor amigo, também em uma combinação com efavirenz, jogou seus medicamentos em uma lixeira e fez exatamente isto — ele morreu de complicações de AIDS em 2013. Muitos homens que não toleravam esta medicação desistiram e morreram.

Então quando digo que, para alguns de nós que tomam efavirenz, uma morte de AIDS seria um alívio frente aos efeitos dos quais sofríamos, você deveria estar ciente do que estou falando. Neste momento, você deveria estar se perguntando como você se sente com o que você está tomando. Você deveria estar perguntando o que seus amigos estão tomando também.

Em 2004, eu estava em um local para tratamento de longo prazo para drogas. Não era chique. Era o oposto. Havia uma cerca de correntes de 20 pés de altura amarrada ao redor do meu dormitório para impedir que eu me jogasse na frente de um ônibus urbano. Não tinha cadarços, nem navalhas e nem janelas para abrir. Quando os ventos de Santa Ana sopravam poeira quente no jardim pricipal, era possível ver e às vezes sentir o gosto – mas nunca sentir passando pelo meu cabelo.

Durante este período, o efavirenz havia sido colocado em uma combinação de um comprimido só, e assim nasceu o Atripla. Como moeda de troca para a entrada neste tratamento especial, eu tinha que me comprometer a tomar Atripla todos os dias. Então, suportei isto. Eu ainda tinha pensamentos suicidas, mas estava sóbrio. E gradualmente, sem drogas pesadas, as coisas melhoraram — mas nunca ficaram 100%.

Mesmo sóbrio, nunca parei de pensar ou me preocupar com suicídio até anos depois — até eu parar de vez o efavirenz em 2008. Dentro de 6 meses depois de deixar de tomar o efavirenz, minha mente não estava mais inundada com pensamentos suicida, dificuldades em saúde mental ativa ou vício.

Um estudo recente diz que havia taxas elevadas de suicídio ou atentado contra si mesmo naqueles que tomavam efavirenz no gigante estudo SMART — mais ainda nos que haviam sido anteriormente diagnosticados com condições de saúde mental.

Mesmo assim, não via ainda alguma bula dizer “Efeitos colaterais incluem suicídio.” Setembro foi o mês de prevenção do suicídio nos EUA, e outubro tem o dia dos finados. Desde 2014, o efavirenz não é mais recomendado como terapia preferencial de primeira linha nos EUA. Talvez seja o momento para abandonar este medicamento de uma vez por todas.

Matt Ebert
TheBody.com