Meus antirretrovirais… ninguém sai!

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O HIV deixou de ser uma infecção quase inevitavelmente fatal no início da epidemia para se tornar uma condição tratável. Séria e nada trivial, porém, tratável. Na verdade, uma das condições que possuem alguns dos mais modernos medicamentos já criados.

Palmas pros ARVs¹?

  1. Foram criados em tempo recorde. A AIDS não era uma doença que vinha incomodando seres humanos da América do norte há anos. Foi um surto de infecções muito pronunciada em um curto período de tempo, e era altamente letal.
  2. São extremamente eficazes. A terapia tripla, que é o padrão de tratamento hoje em dia, funciona de maneira incrível. Suprime o HIV por completo no organismo. A carga viral, que antes flutuava na casa dos milhares ou milhões, agora fica indetectável. Testes com capacidade de detectar até 20 cópias do vírus não conseguem mais detectar nada na corrente sanguínea.
  3. São bem tolerados. Praticamente qualquer medicamento pode causar efeitos colaterais. Muitos de nós não percebem isto pois não os tomam de forma contínua. Aspirina em doses baixas pode causar sangramentos estomacais, por exemplo. Paracetamol (acetaminofeno) pode causar terríveis problemas ao fígado. Mas são bem tolerados quando usados esporadicamente. Antirretrovirais também são geralmente bem tolerados e extremamente seguros, mas precisam ser tomados por anos ou décadas. ESTA é a diferença.

ARV, seu lindo!

Os antirretrovirais modernos foram criados pensando em uma vida inteira de uso.

Não confunda a situação de 30 anos atrás com 2017, por favor.
Também não confunda o caos de muitos países com a facilidade do tratamento no Brasil.

Estamos em 2017, e estamos no Brasil. Este ano promete uma grande modernização nas terapias utilizadas no SUS. Terapias mais humanas, mais eficazes, muito melhor toleradas e com posologia confortável. O Ministério da Saúde até mesmo excluiu os antirretrovirais de uma categoria especial e agora os trata como medicamentos comuns que podem ser transportados como qualquer outra droga.

O dolutegravir foi enviados a todos os estados no dia 16 de janeiro e já está até descrito como terapia preferencial no formulário de preenchimento dos CTAs². Deve estar quase chegando no seu CTA ou ambulatório. Se é que já não chegou e está lá disponível para você. Um medicamento novo e extremamente eficaz em baixas doses. Somente 50mg por dia para suprimir o HIV, claro, em conjunto com o 2 em 1 (tenofovir + lamivudina).

O Kaletra (lopinavir+ritonavir) deve parar de ser recomendado em breve. Dando lugar a dois outros inibidores da protease muito melhor tolerados: o atazanavir e o darunavir.
Tudo graças à baixa de preços e compra de genéricos de ambas as medicações.

O temido efavirenz vai ser colocado como terapia alternativa. Para quem começou a tomar o dolutegravir e não se sentiu bem, teve efeitos colaterais indesejados, ou porque simplesmente prefere um só comprimido e não sente efeitos colaterais com o efavirenz.

Exames para identificar hipersensibilidade ao abacavir estarão mais acessíveis neste ano. Abacavir é um bom substituto a quem não pode tomar tenofovir, seja por que tem problemas renais ou porque sofre com perda óssea.
Não temos TAF (versão melhorada do tenofovir), mas temos abacavir. É bom o suficiente por enquanto.
Esta maior disponibilidade de abacavir pode também dar maiores chances para que o dolutegravir venha para o Brasil coformulado com lamivudina e abacavir, chamado de Triumeq no exterior.

Os medicamentos mais antigos estão finalmente sendo retirados das vidas das pessoas. Muitos já pararam de tomar AZT e foram para o tenofovir. Outros muitos já substituíram o fosamprenavir ou saquinavir por inibidores da protease mais modernos, como o darunavir. A didanosina está sendo retirada de circulação também, para o bem geral da humanidade e comunidade soropositiva. Não se fala muito mais da nevirapina também.

Neste momento, a TARV (Terapia Antirretroviral) no Brasil parece verdadeiramente moderna e avançada. Quase equivalente ao tratamento disponível na Inglaterra, onde uma das diferenças mais visíveis é que todos estes medicamentos fazem parte da primeira linha, não sendo necessário avançar degraus para chegar a uma boa terapia. Chegaremos lá, sem dúvidas.

Aqui estamos até mais avançados do que a Inglaterra em pelo menos um aspecto: a aprovação da PreP, a profilaxia pré-exposição com Truvada (tenofovir+emitricitabina). Enquanto na Inglaterra a aprovação parece distante e complicada, no Brasil a conversa parece bem mais aberta e amigável. É questão de tempo.

Com certeza ainda há muito a se fazer. Não cruzamos a linha de chegada, e jamais cruzaremos. Será um processo de melhoria contínua. Mas hoje eu quero comemorar os avanços biomédicos. Quero celebrar a vinda de novas terapias. Desejo que estas excelentes terapias melhorem ainda mais ao longo do tempo, e que estejam disponíveis a todos.

Aos negros, homens que fazem sexo com homens, gays, transsexuais, mulheres, heterossexuais, índios, pobres, usuários de drogas, moradores de rua, imigrantes… a todos. Assim também dar a estas pessoas mais possibilidades para mudarem o rumo de suas vidas.

Parabéns à sociedade civil pela luta e ativismo. Também às instituições que tanto nos apoiam. Parabéns aos seres humanos que fazem todo este movimento dar certo.

¹ antirretrovirais
² Centro de Testagem e Aconselhamento