Aids no Carandiru

Amo o Drauzio Varella por seu trabalho. Não só pelo trabalho ativo sobre a condição que me afeta, mas também pelo seu trabalho com todas as doenças que atingem as mais diversas populações.

Sei também que suas generalizações são do bem. Elas têm a intenção nobre de abrir nossos olhos.

Porém, eu gostaria de propor uma reflexão alternativa. Eu discordo que a maioria dos jovens tenha perdido o medo do HIV. Vou até além: acho que é só MEDO que os jovens têm.

O que os jovens não têm é o medo bem fundamentado. Eles não possuem o embasamento científico para dar sustentação aos seus medos e, por este motivo, o medo acaba sendo diluído em meio a tantos outros sentimentos.

Eles têm medo dos horríveis efeitos colaterais, da mudança da aparência, das manchas pelo corpo, da lipodistrofia. E qual é o efeito maligno disto?
Basta encontrar uma pessoa aparentemente saudável para que todo este medo se desfaça. Basta que o namorado seja fofo para que o HIV seja eliminado da sua mente. Basta uma feição ingênua para dissolver os medos.

Isso quer dizer que o medo não funciona como arma para prevenção? Claro que funciona!

Medo é um sentimento humano, natural, útil, e que faz parte do dia a dia. Então, se o sentimos de qualquer maneira, que seja de uma maneira digna e verdadeira. Assim, o resultado é mais duradouro e consistente.

De que adianta colocar medo em mim falando de um passado que não existe mais com tanta intensidade? Sendo que, como não verei este tipo de situação tão facilmente, logo descreditarei este medo.

As pessoas devem sim evitar contrair HIV, de todas as formas possíveis. E por quê?

Porque, neste momento, os medicamentos ainda podem causar efeitos colaterais. Apesar de muito mais seguros e bem tolerados, e com muitas opções de troca.

Também podem ter medo de ter que tomar antirretrovirais diários por décadas, que é o que provavelmente vai acontecer. Comigo e com praticamente todos os soropositivos do Brasil.

Pode ter medo do estigma e da discriminação porque, sim, ela ainda existe com bastante força em 2017. E vai continuar existindo por um tempo.

São vários os motivos para se ter medo de contrair HIV em 2017, mas não são as imagens de 30 anos atrás que devem ser o combustível desse medo. São as imagens de AGORA que devem ser a força motriz do medo. É a educação que deve trazer medo, o medo bom.

Assisto às imagens da AIDS no Carandiro e claro que lacrimejo. A porra é forte. E claro que aumenta minha adesão aos medicamentos imediatamente. Mas aí que está, este medo é tão impactante que se dissocia da realidade com muita facilidade.

Eu prefiro contar com o medo proporcionado por tudo o que aprendo em estudos científicos. Este me mantém racional e no caminho.