Caio – 13 dias desde o diagnóstico

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Bom, meu nome é Caio e eu tenho 22 anos. Moro no Recife e me mudei para a capital com o propósito de estudar. Estou aqui há quase 5 anos e prestes a me formar. A confirmação veio no dia 17 de maio de 2017. Sim… Há apenas 13 dias! Jamais imaginei que chegaria no ponto de escrever para vocês, mas diante de tudo o que tenho passado, toda experiência e conhecimento que adquiri ao longo desses dias, acredito que minhas palavras irão ajudar algumas pessoas.
Ao mudar de cidade eu me senti livre, pois não tinha hora para chegar em casa, nãojoshua-k-jackson-203191 tinha pai ou mãe para falar o que eu podia fazer e isso foi maravilhoso para mim, uma liberdade incrível. Foi então que comecei a viver minha sexualidade, cheguei a entrar, várias vezes, nas salas de bate papo UOL e conhecer pessoas casualmente. Em 2013, conheci um cara que queria fazer apenas sexo sem camisinha, no começo ele foi maravilhoso comigo e me pedia muito para engolir a porra dele (O que acabou acontecendo), mas depois desse fato ele sumiu da minha vida e então eu comecei a desconfiar sobre o HIV. Isso ficou para sempre na minha cabeça, mas nunca tive a coragem de ir fazer o teste por medo da confirmação. Acredito que este tenha sido o motivo pela qual estou infectado hoje, pois depois disso eu sempre me preveni e tinha muito medo de acontecer alguma coisa comigo.

Com o tempo alguns sintomas foram aparecendo, mas não me importava muito, passei por uma fase em meados de 2014/2015 na qual eu sentia vontade apenas de morrer, pensei várias vezes em suicídio, mas nunca cheguei a fazer nada, eu me sentia sozinho, nathan-anderson-260699abandonado, sem amigos, sem amores, sem ninguém, eu me perguntava todos os dias qual era o sentido da minha vida. Nessa fase eu fiquei um ano (ou mais) sem sair com ninguém. Sem sexo, sem beijo, sem carinho. Eu morava sozinho e mesmo que eu chegasse a dividir apartamento com outros colegas eu não me dava muito bem com eles. Eu achava que se eu tivesse HIV isso seria maravilhoso pois assim eu morreria rápido e acabaria com toda essa dor que eu sentia por dentro. O tempo passou e com ele a crise existencial se foi, eu comecei a aproveitar, apareceu um amor em minha vida, amigos, comecei a dividir apartamento com pessoas maravilhosas, enfim, comecei a enxergar tudo de outra forma.

No final de 2016 eu tive uma perda de peso muito elevada e uma diarreia de 15 dias seguidos, além de muita febre alta e um pouco de dor ao urinar (sintomas do início da doença). Então sai para a internet para procurar o que podia ser, e todos os sites me levavam para o HIV. Fiquei desesperado, eu não sabia o que fazer, quem procurar e com quem falar sobre o assunto. Sabem o famoso “sofrer antecipado”? Pois bem, eu sofri e sofri muito! Eu melhorei, mas sempre que eu me deitava eu me lembrava e isso me perturbava muito. Foi então há quase dois meses atrás que eu saí para beber com os amigos da faculdade (eu bebi para caralh*) e quando cheguei em casa eu simplesmente adoeci, acordei sem conseguir me mover da cama, começou a aparecer os rash cutâneos em meus pés (que coçavam/coçam sem parar), eu sentia muita fome, mas não conseguia comer, eu sentia calor e sentia frio, eu não conseguia me concentrar em nada e nem conseguia estudar para as provas que estavam acontecendo naquela semana. Foi péssimo, eu me vi mais desesperado ainda, pois novamente apareceu todos os sintomas que me indicavam a AIDS

Acho que o pior momento foi quando eu entrei no Facebook e vi umas fotos de amigos andrew-neel-117763curtindo e felizes, pois se passou toda um flashback sobre a minha vida e meus objetivos, então pensei: “não acredito que vou morrer cedo e não vou realizar nada”. Na então rede social fui conversar com um amigo sobre o assunto, cheguei de cara perguntando “Como você reagiria se você descobrisse que você tem HIV? E o que você faria se fosse com um amigo seu?” Ele me respondeu com muita clareza e tranquilidade. Eu estava aqui na frente desse computador conversando e chorando, desesperado e então decidi falar o que estava se passando na minha cabeça. Conversamos muito e então, depois de duas semanas, quando eu me senti melhor de tudo, saímos para fazer o teste… Foi ai que veio, como esperado, positivo para mim e para ele, negativo.

Uma cena que eu não consigo esquecer, foi no exato momento que entrei na sala e vi o meu teste com duas linhas vermelhas (o que indicava que eu era HIV positivo), desde então sempre passa pela minha cabeça esse momento. Eu fiquei desesperado, mas acho que, no fundo, eu fiz “ceninha”. Fui para a psicóloga e refiz o teste de confirmação. No caminho para casa percebi que o meu amigo estava mais desesperado do que eu, ele chorou, me abraçou, me consolou muito, mas eu fiquei mais tranquilo do que ele. Não teve sensação melhor do que tirar todo aquele peso (da dúvida) das minhas costas.
Claro que eu fiquei muito tenso, com medo, com muitas dúvidas, enfim, com tudo que um recém diagnosticado deve passar. Ao chegar em casa comecei a estudar fundo sobre a situação atual do HIV no mundo e no Brasil.

Eu já sabia por cima que as pessoas conseguiam viver muito bem e “normalmente” sendo portadoras do vírus. O que eu não sabia era que mesmo quem já tinha desenvolvido a AIDS também conseguia, pois sempre tive a ideia de que “se tiver o vírus e descobrir antes da AIDS vive, se descobrir já com a AIDS desenvolvida morre”, pois eu não entendia como funcionava o tratamento. Passei o dia inteiro lendo comentários e depoimentos de pessoas que vivem com o vírus e digo com toda certeza, isso foi o principal motivo para me tranquilizar. Eu vi muita gente inteligente por aqui, muita gente que passou pela mesma situação que eu, vi pessoas que foram enganadas, mas que não se deixaram levar por isso. A vocês leitores do blog, vai aqui o meu agradecimento, queria pedir para que vocês não deixem de comentar aqui, pois os seus comentários ajudam muito.

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Com apenas dois dias eu fui para consulta médica com o infectologista e logo em seguida ele me receitou uma medicação. Infelizmente, só comecei a tomar 4 dias depois da consulta, pois o dolutegravir estava em falta no CTA. Hoje faz uma semana que comecei a tomar o que chamam de coquetel (dois comprimidos, sim apenas DOIS, não são 10 ou mais como as pessoas desinformadas falam). Eu não sinto nenhum efeito colateral e tenho certo receio da medicação não estar fazendo efeito. Sei que estou tomando uma medicação avançada e os efeitos são poucos, fico muito feliz por isso, eu sinto que vou ficar bem, pois no final tudo se resolve.

Confesso que tenho um arrependimento muito grande por não ter feito o teste antes de aparecer os sintomas da doença, pois provavelmente, hoje, eu já estaria indetectável e sem me preocupar com algum tipo de doença oportunista. Mas sei que tudo tem o seu tempo certo e acho que esse foi o período ideal para eu descobrir e ter a certeza, pois já imaginou se eu tivesse descoberto na fase que eu tinha vontade de morrer? Melhor nem pensar sobre isso, né?

Hoje a única coisa que me tira um pouco a minha cabeça do lugar é a dúvida com relação emily-morter-188019ao tipo de vírus (HIV 1 ou 2) pois vejo que os tratamentos hoje são mais ideais para o tipo 1. Tenho medo de ser o 2. Eu ainda não sei qual o tipo de vírus, pois não sabia que existia uma diferença, só me informei sobre depois do resultado e da consulta médica. Não tenho muita informação sobre isso, pois estou evitando buscar informações que podem acabar me perdendo psicologicamente. Eu só quero pensar que tudo irá ficar bem e todos os meus planos irão se concretizar.

Por fim, não vejo o HIV como um problema em minha vida. Eu acredito que ser reagente só me trouxe e trará evolução espiritual. Agora eu tenho muita vontade de viver, de conseguir formar uma família, ajudar minha mãe financeiramente, conseguir um bom emprego. Meus sonhos e desejos só ficaram mais fortes e voltaram a aparecer novamente em minha vida. Me surpreendo com o quanto estou sendo forte para seguir essa luta sozinho. Além de que, sinto um desejo enorme em poder ajudar pessoas que estão passando por isso e sei que vou conseguir.

Autor: Caio, 22 anos. 13 dias desde o diagnóstico.

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  • Henrique

    Caio, também sou de Recife. Descobri que sou soropositivo em 11/04/17. Ainda não iniciei o tratamento. Qual o teu contato? Poderíamos trocar uma ideia?

    Ass Henrique.

    • Derek

      Oi, Henrique!
      Você pode falar com o Caio pelo Kik.
      Baixe e instale o Kik no seu smartphone, e aponte para a imagem n lateral aqui do blog para entrar no nosso grupo do vHIVo.com