3 x 1 (ou 3 em 1, ou “Atripla” ou Telura)

Antes de mais nada, vamos clarificar o nome da medicação, o porquê de ela ser chamada assim e também quais os equivalentes.

No Brasil, este medicamento é o famoso 3×1, ou 3 em 1. As pessoas chamam-no assim justamente por ser o único medicamento distribuído no Brasil que é uma combinação completa em um único comprimido.

Os nomes

O governo Brasileiro compra o 3×1 de uma empresa indiana muito bem conceituada, a Mylan, e lá este produto chama-se Telura.
Nosso medicamento é uma versão levemente inferior à bem conhecida Atripla, o medicamento mais utilizado no mundo para tratamento do HIV-1.
A única diferença do Atripla para o nosso comprimidinho diário é um dos componentes, no 3×1 é a Lamivudina (3TC) e no Atripla é a Emitricitabina (FTC). São muito parecidas, ambas são inibidores de transcriptase reversa análogos de núcleosídeo, ambas têm eficácia parecida em combinação com Tenofovir e ambas têm muita similaridade em termos de toxicidade (quase nada).
Então quando fazer suas próprias pesquisas vai encontrar mais informação se colocar Atripla no Google e não 3×1. Também podem aparecer outras versões similares ou idênticas como: Tribuss, Atroiza, Telura, Citenvir, Odimune, Trivenz, Trustiva ou Viraday.

O que contém?

O medicamento 3×1 brasileiro é um regime completo para tratamento de infecção por HIV-1, independente de carga viral ou de contagem de CD4. Desde que, é claro, o vírus em seu corpo não seja resistente a nenhum dos componentes, e isto pode ser visto por seu infectologista em um exame de genotipagem.

As diretrizes internacionais recomendam que qualquer esquema terapêutico contenha 3 drogas de pelo menos 2 classes diferentes. E assim é o 3×1.

Possui Tenofovir (TDF) que é um inibidor de transcriptase reversa análogo de nucleotídeo (ITRNt) em conjunto com Lamivudina (3TC) que é um inibidor de transcriptase reversa análogo de necleosídeo (ITRN), basicamente a mesma classe do Tenofovir, atua no mesmo local da reprodução do HIV.

E agora vem o terceiro componente e geralmente o mais temido pelos efeitos colaterais no início do tratamento, o Efavirenz (EFV), um inibidor de transcriptase reversa não análogo de nucleosídeo (ITRNN).

Assim é composta a terapia de primeira linha no Brasil, ou seja, a primeira opção para recém infectados pelo HIV.

Tenofovir (TDF 300mg) + Lamivudina (3TC 300mg) + Efavirenz (EFV 600mg)

Um tratamento completo em um único comprimido, tomado somente uma vez por dia e composto por drogas relativamente moderas, com boa tolerabilidade depois das primeiras semanas e bastante seguro.

Tolerabilidade

O medicamento 3×1 distribuído pelo governo Brasileiro gratuitamente é bem tolerado pela maior parte das pessoas.

Lendo vários fóruns percebo que eu tive uma das piores experiências com o medicamento. Algumas pessoas não sentem absolutamente nada, outras somente alguns sonhos, outras uma tonturinha ou outra, eu tive bastante de tudo. Espero que você seja um dos sortudos.
Os efeitos colaterais mais comuns são geralmente relacionados ao Efavirenz e de forma muito grosseira são:

  • Tontura.
    Realmente, nos primeiros dias costumo dizer que fiquei chapado, completamente desnorteado e confuso. Por isso recomendo que você inicie o tratamento em uma sexta-feira ou em início de férias caso isto não adie seu tratamento em muitas semanas.
    Na primeira madrugada acordei para urinar e parecia muito bêbado. De manhã ainda uma tontura forte permanecia.No meu caso fui me sentir mais “normal” no início da terceira semana de medicação, as cada dia ficava mais fácil e menos perceptível a tontura do remédio.
  • Diarreia.
    Acontece com uma boa parte das pessoas e costuma ser passageira também, até o corpo se adaptar com a medicação.
  • Rash cutâneo.
    Talvez uma das reações mais comuns ao utilizar drogas da classe ITRNN como Efavirenz e Nevirapina. Partes da pele podem ser acometidas por manchas avermelhadas pequenas, também chamadas de exantema maculopapular.
    Algumas pessoas preferem descontinuar o tratamento quando isto acontece, porém, pelo menos internacionalmente, o recomendado é continuar com a medicação e tentar aliviar os sintomas com anti-histamínicos, no Brasil os de farmácia mais comuns são Dexclorfeniramina e Loratadina.
    As manchas tendem a vir em ondas e desaparecer dentro de alguns dias mesmo continuando com a medicação. Mas se acontecerem, com certeza: converse com seu infectologista.
    Só ele saberá avaliar o quão grave é o seu caso. No meu caso tive apenas algumas manchinhas nas costas que sumiram dentro de 4 dias.
  • Sonhos vívidos.
    No meu caso este é um dos efeitos colaterais mais persistentes, depende do dia e muito do horário no qual eu tomo a medicação. A recomendação geral para a tomada do 3×1 é perto da hora de ir dormir para passar pelos efeitos enquanto você estiver com sono pesado já, mas percebo que assim tenho mais pesadelos ou sonhos perturbadores.
    Então minha tática foi testar meu corpo, cada dia tomar uma hora antes e perceber se eu tinha tonturas e pesadelos, bem como desconfortos gastrointestinais. Minha hora preferida é às 20h, assim quando entro na fase do sono que é mais propícia a sonhos o remédio já está mais fraco.

Os efeitos colaterais principais passaram, o corpo se acostuma. Vale a pena persistir, pelo menos enquanto não temos outra opção em uma pílula só.
Mas se não tolerar de maneira alguma seja sincero com seu infectologista e os agentes de saúde. Você tem o direito de trocar de medicação, talvez trocar o Efavirenz por Nevirapina, ou até por Atazanavir+Ritonavir. Seu médico decidirá.

Segurança

O medicamento 3×1 é uma opção segura para tratamento da infecção por HIV. É composta por componentes incansavelmente testados em laboratórios e em estudos clínicos também. Apresenta superioridade e maior segurança quando comparado à maior parte de outros antirretrovirais mais antigos como combinações que utilizavam ddl, d4T, AZT, etc.

Por conta do Tenofovir DF, função renal deve ser monitorada. E doses deve modificadas caso os níveis de clearance sejam deficientes, ou é claro, a mudança para outro ITRN como Abacavir (depois de um teste de hipersensibilidade chamado HLA-B*5701).

Eficácia

Bom, para determinar a eficácia do 3×1 hoje em dia, basta saber que a maior parte das pessoas em tratamento no mundo fazem uso desta combinação e todos os que tomam o medicamento corretamente muito provavelmente têm carga viral indetectável.

A própria Gilead demonstra em vários estudos a segurança e eficácia em termos de manutenção da carga viral abaixo de 50 cópias ou indetectável, comprovando a não-inferioridade de sua outra combinação com o inibidor de integrase Elvitegravir (Stribild) PORÉM em momento algum dando grandes desvantagens à sua outra combinação de sucesso chamada Atripla ou a uma combinação com Atazanavir+Ritonavir.

Sendo assim, mesmo o Brasil não tendo inibidores de Integrase disponíveis em terapia de primeira linha nós soropositivos estamos seguros e muito bem tratados. Com drogas modernas que mantém o vírus indetectável nos testes de carga viral, dão a chance de nossas células CD4 voltarem a números extremamente saudáveis e que não causam os temidos efeitos colaterais do passado.

 

Nossa luta

Já temos uma combinação de primeira linha muito boa em comparação a muitos outros países que ainda dão a seus pacientes com HIV drogas extremamente tóxicas.

Mas isto não é motivo para pararmos a luta, ter HIV é ter um compromisso com a própria saúde que pode durar anos até o descobrimento e disponibilização de uma cura, mesmo que somente funcional.

por tal motivo, devemos continuar conscientizando a todos e a nós mesmos de ter o melhor tratamento possível.

Queremos sim Dolutegravir + Truvada em primeira linha para que haja menos chance de resistência a medicamentos, para que possamos dormir sem pesadelos e acordar bem, para que não tenhamos reações alérgicas, para que tenhamos supressão viral duradoura. Para que possamos proteger nossos parceiros e parceiras.

Queremos sim Truvada para profilaxia pré-exposição no Brasil, queremos PrEP!
Queremos nos sentir menos infecciosos para os que amamos.

O Brasil já está na frente de muitas iniciativas, tanto com adição de medicações quanto com disponibilização de PEP e estudos de PrEP. Mas é preciso acelerar, queremos chegar ao tratamento do Reino Unido, de Portugal, da França e a tecnologia dos EUA.

Fontes:

http://i-base.info/guides/1561

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3000684/