O primeiro a gente nunca esquece

8/12/2015 – Comprimido #1

Efavirenz + Tenofovir + Lamivudina – trio parada dura.

Fui pegar meus medicamentos no CTA, depois de receber a notícia de que minhas células CD4 ainda estavam em um nível normal, em torno de 615 células por mm3.

Estava feliz no dia. Me sentia contente, quase extasiado, por estar indo pegar minha medicação 3 em 1. Era só um comprimido que, se Deus quisesse, faria minha carga viral ir de 17.000 cópias para indetectável em algum tempo.

Meu namorado dirigia o carro, pois eu estava empolgado demais, queria logo tirar a bula e ver como eram os comprimidos que fariam parte do meu dia a dia.

A bula era gigante, proporcional ao comprimido que também era enorme. Mas pelo menos era só um.

À noite, na minha cama, peguei um dos comprimidos. Era uma terça-feira quente mas confortável. Eu queria quase acender uma vela para acompanhar o primeiro comprimido com vinho. Eu queria fazer deste momento algo memorável, para que eu não tivesse mágoas. Queria considerar aquele comprimido como o que ele realmente é, um medicamento.

Engoli o comprimido com um copo de água. Pedi aos céus que não tivesse muitos efeitos colaterais. Pedi que a tonturinha fosse fraca, e que os sonhos não fossem assustadores.

O comprimido está descendo lentamente. Sinto a água fria atingindo as paredes do meu estômago. Agora o comprimido está lá. Três componentes ativos e mais excipientes. Ainda há tempo, Derek. Você pode vomitar o comprimido inteiro e adiar o início do tratamento, mas postergar a contínua ansiedade. Você pode parar esta palhaçada agora, mas não há nenhuma outra palhaçada mais séria do que esta.

Peguei meu computador, e comecei um relatar os primeiros minutos. Esta parte foi fácil, meu corpo não havia nem digerido a medicação ainda. Nada havia acontecido, e era assim que eu ansiava que a minha noite inteira fosse.

Acordo assustado. Imediatamente percebo que o medicamento está agindo em mim. Aquele não sou mais eu mesmo. Não sou mais quem eu era há apenas 4 horas. Drogado por necessidade.

Preciso ir ao banheiro fazer xixi, e a vontade é incontrolável. Preciso também verificar as minhas funções motoras, olhar pro espelho, ver se não há sangue na minha urina, vomitar, quem sabe.

Ao me levantar percebo que preciso de ajuda. Meu namorado está do meu lado. Ele me disse que me ajudaria. E ele acabou de acordar para me ajudar, vai dar tudo certo.

O caminho até o banheiro nunca pareceu tão tortuoso e cheio de lombadas. Acabou. Estou completamente bêbado, chapado, sonolento e frito ao mesmo tempo. Um sentimento que nunca mais quero ter na vida. Ninguém merece uma vida sem sobriedade e sem controle da própria mente.

Finalmente minhas mãos tocam a porta. Consigo bater no interruptor e trazer luz, mesmo que somente a luz física. Sento no vaso. Minhas chances de mirar qualquer coisa e errar grandiosamente nunca estiveram tão altas. O frio do assento, assim como o da água anteriormente, me traz alguns por cento de volta à realidade. Meu tato ainda está funcionando, mesmo com meu rosto quente e minhas mãos formigando.

Volto para a cama, vou pedir ajuda. Meu namorado vai saber se estou bem ou não, né?!

“André¹! André… acho que estou mal. Não consigo andar direito!”

Sempre me puxando para a realidade e me fazendo enxergar a imparcialidade dos fatos, o André calmamente diz: “Mas isso significa que o remédio está funcionando, não significa?”.

Tecnicamente não significava, eu poderia muito bem só estar sofrendo efeitos colaterais sem efeito algum sobre minha carga viral. No entanto, não havia espaço para ceticismo. Eu precisava da bondade ingênua dele para passar a noite.

Como nas boas crises de nervos, comecei a ter espasmos. Estava com medo. A vida estava me abandonando? A vida como eu conhecia seria completamente desfigurada a partir daquele momento?

“Sh, sh, sh, sh shhhhh… Eu aqui e nada de ruim vai acontecer. Tenta dormir. aqui.”

E dormi.

¹Nome fictício.

Cominho preto cura HIV? [Dr. Benjamin Young]

Pergunta:

O cominho preto cura o HIV?

Cominho preto (Black Seed)

Resposta do Dr Benjamin Young:

young-top

Olá, e obrigado por postar.

Sinto muito. Não existe cura para o HIV. E qualquer discurso falando que cominho preto possa fazer isto é pura enganação deslavada.

Na experiência com HIV em 70 milhões de pessoas, apesar de milhões de dólares gastos até hoje na procura pela cura, somente um indivíduo foi realmente curado do HIV- Timothy Brown (conhecido como o Paciente de Berlim). O seu caso único envolveu o uso de antirretrovirais e um transplante de medula óssea. Várias tentativas de replicar esta estratégia falharam.

Enquanto o estigma, a discriminação e a criminalização do HIV continuam a ter um papel sério e impacto importante nas vidas de pessoas vivendo com HIV, os remédios de hoje funcionam, são seguros e geralmente muito bem tolerados. Remédios para o HIV podem recuperar (ou manter) a saúde, e prevenir mortes por AIDS, e prevenir a transmissão para os outros- parceiros sexuais ou de uso de drogas ou bebês de mulheres soropositivas. Os remédios para HIV são recomendados para todas as pessoas vivendo com o vírus (independente de CD4 ou estado clínico), e devem ser oferecidos (e tomados)até o dia no qual uma cura tenha sido comprovada e esteja disponível.

Fique bem, BY.

Página original.

 


Comentário de Derek:

Este é apenas um exemplo de uma pessoa que procura a cura do HIV por meio de plantas, ervas, sementes, etc. Não faça isso.

Enquanto esta pessoa testa em si mesma coisas inúteis do ponto de vista da cura ou até mesmo da supressão viral, seu corpo está pagando o preço. Seu CD4 está caindo e sua saúde deteriorando.

Tome os antirretrovirais corretamente. Ponto.

Muitos países não têm o arsenal de medicamentos antirretrovirais que nós temos aqui no Brasil. Aproveite esta oportunidade de fazer do HIV somente um H a mais e viver normalmente.

Um dia a cura será encontrada. Até lá, tome seus ARVs direitinho.

Pessoas que dão a cara a tapa [Vídeos]

Uma véspera que faz muitas pessoas vivendo ou convivendo com o HIV ficarem pensativas. A véspera de um dia que ganhou um laço vermelho para ajudar a todos nós, soropositivos, a enfrentar uma vida digna, longa, saudável, sem estigma ou preconceito, sem medos infundados.

Para milhares de soropositivos também é um dia de ficar na surdina, bem quietinho. Antes de sermos soropositivos, até falaríamos sobre o assunto. Talvez postaríamos uma mensagem de incentivo nas redes sociais. Poderíamos, quem sabe, ir fazer o teste como movimento simbólico.

Mas a gente prefere se calar. O medo de que alguém sequer cogite a ideia de termos HIV nos paralisa. Este medo nos consome, e é um forte ingrediente das nossas crises pós-diagnóstico.

A sensação de que nunca mais poderemos ser nós mesmos publicamente sem nos envergonhar tremendamente ou sofrer rejeição. Um sigilo que é nosso direito… mas o direito que gostaríamos mesmo é do direito de não manter algo assim em sigilo.
Esse é um direito que nós temos, no papel. No mundo real, poucos de nós conseguem romper a barreira do estigma. Poucos de nós conseguem fazer disto algo público, seja para aliviar uma dor ou para ajudar a causar impacto e melhorar a qualidade de vida de todos os soropositivos.

Porém, felizmente, temos alguns exemplos.

Silvia Almeida

Adoro ela!

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Nunca, jamais desista [motivacional]

Não sei se vocês conhecem as palestras do site/movimento TED, mas eu sou um fã demitas e muitas talks que saem deste movimento.

E aí está uma talk da Diana Nyad, uma nadadora que, com 64 anos de idade, alcançou um de seus sonhos.

Suas mensagens principais são “JAMAIS DESISTA!” e também “Dê um jeito.”

Nós, soropositivos, somos uma minoria. E muitos de nós são minorias dentro de minorias.

É óbvio que tudo isto tem impactos psicológicos e afContinue reading →

Pesquisadores mapeiam melhores combinações para o HIV

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Escolher a combinação certa de antirretrovirais (ARVs) para os pacientes pode ser um desafio.

Pesquisadores no Canadá fizeram uma revisão sistemática e meta-análise da rede para quais combinações funcionariam melhor.

fig4

O autor chefe é o Steve Kanters, PhD, da Precision Health Economics em Vancouver, BC, Canadá, e seus colegas. A revisão foi publicada online no Continue reading →

Como salvar a todos: SUS, planos de saúde, Drauzio Varella

Aqui eu trago a voces uma triste e verdadeira realidade, que é a da saúde brasileira. Tanto dos sistemas de saúde, SUS e privados, quanto da saúde individual das pessoas.

A regra para o futuro é “comorbidade”, que não é nada mais nada menos do que o acúmulo de problemas de saúde.

Contrai HIV.
Entra em depressão.
Engorda.
Colesterol desequilibra.
Triglicerídeos aumentam.
Sedentarismo.
Rins.
Fígado.
Ossos.

Etc, etc, etc.
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Efeitos colaterais do efavirenz e suicídio

head-and-heart

Trago hoje um texto escrito por Matt Ebert para o site TheBody.com.

A maior parte das pessoas que usam o efavirenz não sente efeitos tão dramáticos, mas este é um bom alerta para os que sentem efeitos colaterais continuamente e não desistem do medicamento.

Link original em inglês.

Boa leitura!

 

Os efeitos colaterais do efavirenz incluem risco de suicídio; poderia ter sido eu.

Todos os anos aparecem relatos acerca do efavirenz (Sustiva, Stocrin), contra o vento de uma época que jamais vou esquecer. São lembretes de algo que tenho estado ciente há uma década: Os efeitos colaterais deste medicamento podem incluir suicídio com taxas claramente elevadas naqueles que já possuem alguma doença mental ou usam drogas de rua.

Usei efavirenz por anos. Em 6 meses depois de parar o medicamento completamente, eu normalizei. Pela primeira vez em anos eu não me sentia submerso em pensamentos suicidas, vícios e males de saúde mental debilitantes. Durante os piores anos da minha vida, conheci vários homens que usavam Atripla (efavirenz, tenofovir, FTC) que foram em frente e cometeram suicídio ou overdose. Eu poderia muito bem ser um deles.

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A cura da vaidade para aceitar o HIV com Monja Coen [vídeo]

vaidade

Acredito que muitos de vocês já tenham ouvido falar da Monja Coen, de seus ensinamentos e dos lindos e profundos vídeos que, ao mesmo tempo, são os mais simples.

Neste vídeo, em especial, a Monja fala sobre a vaidade e o quanto ela dificulta as nossas vidas. É a busca pela perfeição, pela supremacia, pelo “ser mais do que os outros, “ter mais do que os outros”, “saber mais do que os outros”, e assim por diante até chegar ao “ser mais saudável do que os outros” que é onde nós que temos HIV em algum momento esbarramos.

Preste atenção no conceito de “boa vaidade” e “má vaidade”. Todos teremos graus de vaidades. As vaidades estão dentro da gente e nos movem a alguns lugares.

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